domingo, 21 de março de 2010

O Pierrot e a Frauvivian!!!

Há muito tempo aquela cidade era somente minha. Eu era o único ser imortal que perambulava pelas ruas e se deleitava com o sangue dos inocentes. Agora não mais. A cidade fora invadida por miseráveis desprovidos de moral, desprovidos de beleza e força. E eu acabara com todos eles. Um por um, pouco a pouco. Uns foram expostos ao sol, outros deixando todo o sangue escorrer de seus corpos até se parecerem com ameixas secas. E outros ainda eu entregara para os lobos, para assim quem sabe, garantir mais algumas longas noites sem confusão. E tudo ia muito bem. E eu tinha um Teatro sob o meu comando. Era nesse teatro que eu aliciava alguns humanos encantadores para me servir. E era lá que o verdadeiro monstro em mim se escondia, se furtava e as poucas lembranças de minha vida mortal se tornavam realidade.
Meu conforto era a Biblioteca Municipal. Lá eu ficava apenas analisando, observando as pessoas que passavam. Às vezes, chegava até a esbarrar em algumas de propósito, para que seu perfume doce ficasse em minhas vestes e eu pudesse me deliciar quando chegasse à minha casa.
Uma noite como noutra qualquer e eu a vi passar. Pelo cheiro não era humana. Queria ter certeza. Cheguei mais perto e passei por ela sem que ela chegasse a perceber. Entrei no beco e cheirei minha mão que havia roçado em seu vestido. Sim, ela era uma de nós.
Pelo andar firme e pelo modo como ela olhava para as pessoas e a cidade, provavelmente não era dali, estava apenas de passagem. Senti grande poder emanando dela. Poucas pessoas poderiam se igualar em poder a mim, até hoje como ela.
Eu tinha de conhecê-la, tinha de saber o que a fazia acordar todas as noites, e o que a fazia se deitar também. Queria saber de onde que vinha tamanha força. Não querendo parecer machista, mas nunca conhecera uma mulher com habilidades suficientes para chegar à minha altura.
Deveria considerá-la um perigo? Deveria me unir com o resto de vampiros da cidade para queimar seu esconderijo enquanto ela dormia? Certamente eu tinha muitos contatos, inclusive humanos, que fariam isso por mim por um mísero gole de meu sangue. Mas não. O Pierrot apaixonado que eu interpretava no teatro era a minha alma, Era o meu personagem mais perfeito e o que melhor representava toda a minha vida.
Eu não era um assassino. Digo não para quem não merecesse. E ela não merecia. Mas conhece-se o ditado, não é mesmo? Tudo o que é estranho deve-se ser ou conhecido ou destruído, logo, eu tinha de me aproximar dela. Mas como? Como fazê-lo sem parecer uma intimidação.
Só há um jeito. Atraindo-a para a biblioteca. Lugar calmo e aconchegante aquele. E eu ali conhecia cada canto e cada lugar de cada livro. Sim, lá eu me sentiria mais a vontade.
Comecei a segui-la para ver quais lugares freqüentava. Em alguns momentos, eu jurava que ela me via. Mas não. Alguém com o meu estilo, não chamavam muito a atenção, de uma vampira. Um Pierrot quase que passava despercebido por tudo e todos. Nunca sendo levada muito a sério, minha fantasia era uma alavanca para ganhar a confiança das presas e de alguns vampiros desinformados.
Logo que a noite caia e a lua se levantava, eu saia para caçar. Minha obsessão era tanta, que nem ao menos escolhia mais as minhas presas. Eu pulava de meu caixão e corria até a rua mais deserta, e me alimentava do primeiro ser sem sorte que passasse por ali. Homem, mulher, criança, deficiente, não importava. E na maioria das vezes ainda dava para espiar a saída de minha amada desconhecida de seu refúgio, que por sinal era muito bem requintado. Já havia conhecido seu interior. Uma noite, enquanto ela saia, eu entrei para espiar o que ela carregava consigo. Assustei-me ao ver que apesar de mulher, tinha mais livros que vestidos, mais quadros de pinturas pitorescas que sapatos. E mesmo assim, ainda conseguia me cativar com suas roupas pela noite.
Pois quando numa noite acordei mais cedo. Muito mais cedo que o normal. E como já era de costume pulara de meu caixão e corri até o seu refúgio. O mal tempo me confundiu. Ainda era tarde e alguns raios do por do sol começaram o seu último banho de calor na cidade. Desesperei-me. Com milhões de lugares para me servir de abrigo, eu não encontrei nenhum. Senti a minha roupa esquentar. Precisava correr, logo seria a minha pele.
Sentei-me perto de umas sacolas de lixo. Elas me protegiam da luz, que ficou ali pouco mais que quinze minutos. Sorte a minha, pois esses poderiam ser os quinze minutos mais rápidos de minha miserável vida.
O sangue em minhas veias havia evaporado. Fechei os olhos e rezei para que algum humano passasse antes de minha bela donzela. Eu sabia exatamente como eu ficava quando estava faminto.
A noite segura enfim. A porta se abre. E lá vem a bela mulher. Salto alto agulha e vestido longo. Vestido especial hoje à noite. Posso ver o sangue correr em suas veias como se sua pele fosse totalmente transparente. O meu coração começa a bater mais forte. Lágrimas de sangue escorrendo de meus olhos e borrando a maquiagem de palhaço gótico. Os dentes afiados arranham meus lábios inferiores. Era à hora, a hora da besta tomar conta de mim. Diria "seja o que Deus quiser" se não fosse tão irônico.
Senti como se minha mente fosse sendo sugada para o fundo de minha alma e uma nuvem vermelha e densa ocupasse o meu local de controle corporal. Senti os braços e pernas cavalgarem, literalmente, na direção da mulher.
Um rugido, um salto e um corpo.
Um bêbado passava pelo local. O modo como o meu corpo bateu no corpo dele chamou a atenção da minha linda donzela, que ficou a olhar para mim. Enfim revelado. Enfim havia mostrado a minha verdadeira natureza. E quão decadente cenário eu mostrava. Envergonhado de mim mesmo, voltei para perto dos lixos. Um coração ensangüentado em uma mão e um fígado em outra. Meu desejo pelo sangue e pela carne revelados assim de forma tão primitiva e violenta. O que ela acharia de mim? Ver-me-ia como um animal sem princípios ou discrição?
Gotas de sangue caiam em minha fantasia. Escorriam pelo meu queixo e pingavam em mim. Os batimentos foram cessando. A mancha de sangue aumentando. Ela me encarava fixamente enquanto eu voltava a ser eu mesmo.
Eu estava saindo naquela noite de um refúgio que não era o meu. Eu não gostava muito de lugares escuros e nada luxuosos. Mas havia a pouco tido um amante que curtia aquele buraco. Eu não suportava a idéia, mas às vezes o meu tédio me levava ali e também havia um vampiro que acreditava que ali era a minha casa. É eu pensava com um belo sorriso sarcástico, ao menos ali havia mais livros e obras primas e nada ali lembrava muito o mundo feminino. O mundo este que eu somente curtia na alcova. Adorava ser mulher e ter os meus amantes. Sim eu os tinha, mas sempre um por vez e aleatoriamente, quase nenhum se conhecia ou cobrava minha fidelidade. Odiava isso. Eu era livre e gostava de ser livre. Pois então naquela noite agradável resolvi sair andando pelas ruas, para avistar do alto de alguma estrada deserta as belas luzes noturnas. Afinal o que poderia acontecer comigo. Eu era uma vampira. Aos transeuntes desavisados eu não era mais que uma bela mulher selvagem como parecia. Sim eu era selvagem, natural, instintiva até. Estava caminhando pela rua próxima ao local anterior e uma coisa me chamou atenção. Era um ser escondido no meio dos potes de lixo. Pensei deve ser algum bêbado ou traste da sociedade que nada vale pra mim. Nem o seu sangue eu quero, quanto mais a sua mísera companhia. E então eu vi o ataque. Sim havia o bêbado, mas também havia o predador. E o predador era nada mais do que o meu imaginado sonhado bobo da corte, o meu Pierrot. Eu percebi o que ele fizera afinal eu era extremamente antiga e isso pra mim era como manchetes nos jornais. Mas eu não o queria vexá-lo, não eu não sabia o porquê de Ele estar agindo assim, caçando assim, e eu realmente estava muito interessada em conhecê-lo. Sim conhecê-lo, mas não ali. Não o humilhando com minha beleza e aristocracia de Chefe, de líder, e com o meu autocontrole diante de cena tão patética, mísera e de seres insignificantes mortos. Eu jamais me alimentara assim. Eu havia criado um modo de me alimentar desde o principio como um psicopata. Nem morder minha vitima superficialmente eu a mordia. Não era tola o bastante pra isso, eu cortava a pele profundamente com minhas unhas, que mais lembravam garras de tão finas e fortes, e daí somente ai eu mordia a carne e sentia o sangue morno em minha bela boca. E também não era sempre que fazia isso. Eu quase não precisava me alimentar. Não sentia fome. Deve ser porque poucos ali me serviam de comida. Sim até meu organismo vampiro era aristocrático, e ao invés de me envergonhar por isso, eu adorava isso em mim e era esse comportamento que fez com que conquistasse o respeito dos líderes, dos mais fortes e daqueles poucos que realmente me importavam. E sabendo disso passei reto rumo ao meu carro que deixara distante. Eu vivia não como uma vampira, mas sim e sempre como uma bela mulher rica e excêntrica. Sim não era como outros que fugiam ou dormiam em espeluncas e caixões. Preferia passar minha noite na minha belíssima e macia cama e de preferência bem acompanhada e já naquele maldito lugar eu já estava me cansando de ficar sozinha, sem um amante que preste.
Eu estava querendo muito ir à Biblioteca Municipal. Não porque eu gostava daquele luxo todo e milhares de prateleiras e livros novos e velhos em todos os lugares e aquele monte de seres hipnotizáveis desfilando pra lá e pra cá, naquele silêncio tumular. Eu ansiava, desejava ir lá porque lá possuía os melhores livros e os mais impossíveis de se encontrar, e eram esses exemplares que eu gostava de sentir em minhas mãos e ler uma ou outra frase para poder me sentar lindamente na poltrona como uma estátua e meditar. Meditar sobre o passado e o presente. Sim eu realmente na minha longa vida somente fazia isso.... O conhecimento era algo extremamente importante pra mim. Conhecimento esse que adquirira mais por vivência do que por leitura, mais por prazer do que por necessidade, mais pelo tempo do que pelo gosto. Sim eu era uma bela e poderosa mulher vampira que desde sempre vivera só, com alguns poucos amantes e que vivia em todos os lugares do mundo e não aceitava jamais casta, raça, estandarte ou bandeira do que quer que seja. Eu era a Suíça da raça Vampira. E todos sem exceção ao me conhecer me respeitava como tal. Eu não era uma Deusa, mas me aproximava muito, devido o meu ar misterioso, enigmático. Não gostava de ninguém. Não me envolvia sentimentalmente com ninguém. Não perdia meu tempo também para brigar, lutar com ninguém, os poucos que me desrespeitaram não viveram segundos pra contar. Sim eu era selvagem e aristocrática, extremamente aristocrática. Assim como minha beleza e minha volúpia. Eu era extremamente antiga, acreditava e sentia que o Criador, no caso Deus, deva ter me criado até mesmo em um espírito vampiro, e pra me castigar me jogou neste planeta de seres gostosos, porém decadentes. Adorava observar os homens e as mulheres fortes. Os fracos e débeis eu os ignorava.... E eu somente aceitava a Natureza tal qual ela era não me importando muito qual reino pertencia. Eu era imortal, eterna, e todos eles também o eram, pelo menos era isso que os livros espiritualistas reencarnacionistas antigos afirmavam. Então tanto pra mim, Frauvivian quanto pra Deus tudo era certo, tudo era bom e tudo era necessário e válido. E ambos não nos metíamos em nada. A não ser se fosse para me defender. E nisso eu era perigosa, extremamente, plausivelmente perigosa. E naquela tarde em especial eu resolvi me decidi rapidamente ir para a biblioteca, não por causa das páginas amarelas de um livro qualquer, mas sim pelo puro motivo que eu queria muito ver um alguém que ficava lá perdendo ou passando seu tempo como um Bobo da Corte divertindo ou penso eu observando aqueles desprezíveis humanos. Eu tinha certeza que Ele sempre me vigiava enquanto lia e outra tinha certeza absoluta que por trás daquele visual idiota havia um belo exemplar masculino e vampiro. Sim um vampiro. Há muito saia naquele maldito lugar com alguns humanos e quase sempre tudo terminava em sangue. Logicamente o deles. Além de serem péssimos amantes, os idiotas eram frágeis. E pra mim frágeis como cristais. E eu queria muito, demasiadamente descobrir se aquele palhaço era um Vampiro que valia eu perder o meu tempo. Se fosse até o parabenizar ia por tal disfarce. E hoje se ele se aproximasse de mim nem que fosse só para me observar a minha beleza excêntrica, eu iria descobrir se o que eu imaginava correspondia com a verdade. Isso nem que eu tivesse que colocar todos aqueles seres ínfimos e ignorantes pra correr, ou então melhor, poderia desmaiá-los com os meus poderes. Hoje eu conheceria pessoalmente o homem por trás da roupa e da maquiagem. Vesti um belo vestido vermelho e longo, balancei a bela cabeleira loiro-avermelhada e calcei um belo par de saltos altos. E estava linda e pronta e agora era só dirigir até lá e esperar, esperar o rato se aproximar da gata e Capt! A gata aqui ia pegar o rato pra brincar ou então quem sabe....
Desci do carro no estacionamento e entrei na Biblioteca com a mesma facilidade de sempre. O guarda – noturno me levou até minha sala e nem precisei dizer nada, somente entrei com meu jeito ímpar de ser e dei-lhe um belo sorriso. Ele se desmanchara em cortesias. Eu as neguei todas, eu somente queria ficar lá na minha sala. Nela somente havia uma bela poltrona e alguns livros que estavam ali propositalmente para minha consulta. O que um belo exemplar feminino fazia com os humanos, e o meu modelo vinha acompanhado da perfeição vampiresca. Entrei em minha sala e me sentei confortavelmente em minha poltrona com minhas pernas cruzadas, o vestido caído mostrando minhas coxas firmes e torneadas. Lembrei novamente do ataque ao bêbado de ontem à noite e fiquei pensando, o meu espécime é um modelo antigo, logo ele vai vir me ver durante a noite. Pensei vou chamá-lo mentalmente será que ele terá a intuição de perceber que eu o estou chamando. Eu o chamei mentalmente apelidando o com carinho de Meu Bobo da Corte. É com um chamado desse de todo jeito ele iria atender. Ou apaixonado ou irritado, mas iria atender prontamente. Fiquei ali por alguns instantes, lindamente estática, com meus olhos fechados, meditando, esperando quando percebi a aproximação do meu Pierrot. Sim meu e isso apenas era questão de segundos e ele seria todo meu ou meu amante ou minha vitima. Ele não estava irritado. Ele parecia envergonhado apenas. Eu nem me movi e disse com voz sensual: _ Boa noite nobre Pierrot. Não tenha medo eu não mordo. Venha até aqui e me dá a honra e o mérito de conhecer o homem – vampiro por baixo da maquiagem. Ele veio até mim e como eu não me movi nem um centímetro ele abaixou perto da minha poltrona e disse com sua voz rouca: _ A honra e o mérito são meu nobre senhorita. Eu me virei pra perto dele e levei minha bela mão ao seu rosto e usando o meu dedo indicador encostei o no seu nariz e disse com voz sensual: _ Tire a sua maquiagem, por favor. Isso é para os outros. Pra mim quero o vampiro, o homem, o ser másculo por baixo de toda essa fantasia. Não aqui é claro. Na minha humilde residência. Sorri ao dizer humilde. Nada em mim era humilde. Eu devia ser a personificação do orgulho e da vaidade. Ele consentiu com a cabeça. E rapidamente estávamos os dois em meu carro rumo a minha humilde residência. Entramos no condomínio fechado que ficava a minha residência. Descemos do carro e o guiei até meu belíssimo quarto. Conforme andávamos eu ia pensando que ele era ótimo, pois saíra melhor que a encomenda, ele quase não falava. Ou seja, não me irritava com tolices. Levei-o até o meu banheiro e disse com minha voz sensual: _ Agora tome banho e se vista decentemente pra um vampiro e lave seu rosto, pois eu o quero conhecer. Não como palhaço, mas sim o líder que sei que é e que vive por baixo desses trapos. Sai deixando o sozinho no banheiro, sua roupa já estava lá e ele somente tinha que tomar banho e vesti-la. Afinal eu não me envolvia com a escória, fosse qual raça pertencesse. E com ele isso não seria nada diferente.


Por VIVIAN SOUZA E YURI!

2 comentários:

  1. amiga muitas saudades me mande um recado ta td ok bjs dani...

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  2. a biblioteca, sempre será um lugar mágico,o banheiro, um banho, as aguas que caem pelo corpo , sempre será digamos estimulantes,mesmo para uma encantadora vampira...

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